terça-feira, 20 de julho de 2010

BLOG DO MAURO FERREIRA

Leve, 'Lua Bonita' ilumina a obra de Zé do Norte

Por Mauro Ferreira para o blog do jornalista.

Veiculada em âmbito mundial no ritmo do baião, ao ser posta em rotação na trilha sonora do premiado filme O Canganceiro (1953), a toada Mulher Rendeira é o maior sucesso da obra esquecida de Alfredo Ricardo do Nascimento, conhecido como Zé do Norte (1908 - 1992). Gravada em diversos idiomas, Mulher Rendeira recupera no disco Lua Bonita o andamento original - mais lento, como se fosse um acalanto - com que a toada foi adaptada por Zé do Norte a partir de um tema tradicional do folclore. Mulher Rendeira é uma das 11 músicas do álbum em que a cantora Socorro Lira reabilita a obra do cantor, compositor e poeta paraibano - hoje pouco ouvida. Quarto volume do projeto Memória Musical da Paraíba, Lua Bonita - Zé do Norte 100 Anos é o sétimo disco de Socorro e celebra, com dois anos de atraso, o centenário do autor de Sodade, Meu Bem, Sodade - outra toada da trilha de O Cangaceiro, revivida por Socorro em dueto afetivo com Vanja Orico, atriz do filme dirigido pelo cineasta Lima Barreto (1906 - 1982) com roteiro de Rachel de Queiroz (1910 - 2003). Com leveza, Lua Bonita ilumina obra de grandeza ímpar com adesões de Elba Ramalho (no xote Flor do Campo), Geraldo Azevedo (no xote que dá título ao disco, Lua Bonita, arranjado pelo próprio Geraldo), Sandra Belê (no coco Balança a Rede) e Zé Paulo Medeiros (na canção São Jorge e a Lua). Um cancioneiro bem eclético. Natural de Cajazeiras, no sertão da Paraíba, Zé do Norte rompeu com sua obra as fronteiras musicais da região onde nasceu - talvez pelo fato de ter migrado para o Rio de Janeiro (RJ). Seu repertório autoral abrange tanto um carimbó - Vai Ver Quem Chegou, temperado com o molho rítmico do Norte do Brasil - quanto um tema afro (No Reino de Iemanjá) e um maxixe (Rainha de Tamba). Temas revividos pelo canto melodioso de Socorro Lira - tão leve quanto os arranjos de Júlio Caldas - neste disco encerrado com a voz do próprio Zé do Norte, que recita os versos de O Poeta em gravação extraída de entrevista concedida pelo compositor em 1977 a uma emissora de rádio de Salvador (BA). Por mais que surjam eventualmente algumas controvérsias sobre a verdadeira autoria de músicas registradas por Zé do Norte como dele (por ter sido folclorista, há quem defenda a tese de que alguns temas teriam sido recolhidos, e não compostos, pelo artista), a obra atribuída ao poeta é de grande valor e merece sair da sombra e ser apreciada sob a luz de Lua Bonita - belo tributo de Socorro.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

JORNAL DO COMÉRCIO (RECIFE)

Sob o Encanto de Zé do Norte.
Autor do sucesso Mulher rendeira tem a obra resgatada pela cantora paraibana Socorro Lira no disco Lua bonita

por Zé Teles, 26 de junho de 2010

Cantor, compositor, poeta, folclorista, escritor, ator, Alfredo Ricardo do Nascimento, ou Zé do Norte, um paraibano nascido em Cajazeiras, em 1908, foi sucesso internacional com Mulher rendeira (que adaptou de uma canção atribuída a Lampião), em 1953, cantada na trilha O cangaceiro, de Lima Barreto. Mulher rendeira desde então recebeu centenas de gravações, no Brasil e no exterior. No mesmo filme, Zé do Norte tornou conhecida outras composições: Sodade, meu bem, sodade, Lua bonita, Meu pião. Ele continuou compondo e gravando até meados dos anos 70.

Daí em diante foi caindo no esquecimento popular, embora, vez por outra, fosse lembrado por artistas como Caetano Veloso (que usa trechos de Sodade, meu bem, sodade, no disco Transa, 1972), Geraldo Azevedo, que gravou Meu pião (no álbum Bicho de 7 cabeças, 1979), ou Lua bonita, que foi gravada por Raul Seixas (A pedra do Gênesis, 1988).

Zé do Norte tem vários outros clássicos, que ele próprio registrou em discos (todos fora de catálogo) e tem parte de sua obra, literalmente, resgatada, pela cantora e compositora Socorro Lira, paraibana de Brejo da Cruz. Socorro lançou, com patrocínio do BNB, o CD Lua bonita, uma homenagem ao centenário do compositor, acontecido há dois anos: "O disco só pôde ser terminado agora. É um projeto que comecei há cinco anos, quando vim morar em São Paulo. O jornalista Assis Ângelo, que tem um programa de rádio com grande audiência, me mostrou os discos de Zé do Norte, e quando comecei a série Memória Musical Paraibana, ele foi um dos autores que decidi gravar". A série foi aberta com o disco dedicado ao compositor Zé Marcolino (Sala de reboco, Serrote agudo), depois vieram CDs com o Coco de Caiana, formado por descendentes de quilombolas, de Alagoa Grande, Sertão da Paraíba.

O projeto Zé do Norte foi inscrito em vários editais de incentivo à cultura, e rejeitado por quase todos. A exceção foi o BNB, que o aprovou. "Foi um valor tão pequeno, que não deu para terminá-lo. Voltei ao banco e consegui o que faltava para finalizar o disco", conta Socorro Lira, que fez a seleção do repertório, escolhendo as músicas com o amigo Assis Ângelo. "Escolhemos alguns sucessos, e também umas menos conhecidas. Zé do Norte deixou muita coisa inédita, em partituras. Podia ter escolhido algumas dessas, mas encareceria o projeto, e a grana não dava para isto."

Mesmo com verba curta, a cantora conseguiu fazer um disco que faz jus à memória do homenageado, com participações especiais de Elba Ramalho, Geraldo Azevedo, Sandra Belê, Zé Paulo Medeiros e Vanja Orico, e uma faixa bônus com Zé do Norte declamando um poema (extraída da gravação de uma entrevista concedida por ele ao Jornal do Brasil, em 1977). "Isto foi possível graças à amizade que tenho com alguns deles, e pela admiração que outros têm a Zé do Norte. Se fossem cobrar cachê, eu não teria como pagar", diz Socorro Lira. As participações aconteceram por acaso, ou sorte. Geraldo Azevedo, ela encontrou numa viagem a Juazeiro do Norte: "Ela já havia gravado Meu pião, combinamos para ele cantar Lua bonita. Foi Geraldo que sugeriu que eu convidasse Elba Ramalho e Vanja Orico, com quem eu não tinha contato. Acabei indo ao Rio, conheci Vanja e nos demos muito bem. Ela vai fazer 80 anos, conversa muito, contou todas as histórias possíveis e imagináveis das filmagens de O cangaceiro, de Zé do Norte, do diretor Lima Barreto". Vanja Orico, atuou no filme e canta Mulher rendeira e Sodade, meu bem, sodade, que ela voltou a gravar neste disco, num dueto com Socorro Lira.

A cantora tem uma discografia com duas vertentes, a de músicas autorais, já com seis títulos, alguns lançados na Europa, e esta, de preservação da memória da música paraibana. "O próximo disco que penso em fazer na série Memória é com a música de Cátia de França. Enquanto isso vou divulgando este disco. Dependendo do contratante, posso cantar com a banda, ou viajamos eu e Júlio Caldas, que fez os arranjos no disco e toca muito bem violão ou viola".

LUA BONITA NA RÁDIO UOL

Ouvir o CD LUA BONITA

http://www.radio.uol.com.br/#/album/socorro-lira/lua-bonita---ze-do-norte-100-anos/20029

PORTAL PARAÍBA

A cantora paraibana Socorro Lira foi a primeira a se apresentar, trazendo para o palco músicas como ‘Sapato de Algodão’, ‘Balança a Rede e Mulher Rendeira’, todas do CD ‘Lua Bonita’, homenageando o compositor paraibano Zé do Norte. A segunda atração da noite foi à banda de Pífanos de Caruaru. No palco, os integrantes contagiaram o público com um repertório repleto de baião, samba-matuto, xote, xaxado, frevo e forró, a maioria do CD ‘Tudo Isso É São João’, lançado em 1999 com músicas juninas.

Secom-JP

SNN SISTEMA NORDESTE DE NOTÍCIAS

A cantora paraibana Socorro Lira foi a primeira a se apresentar, trazendo para o palco músicas como ‘Sapato de Algodão’, ‘Balança a Rede e Mulher Rendeira’, todas do CD ‘Lua Bonita’, homenageando o compositor paraibano Zé do Norte. A segunda atração da noite foi à banda de Pífanos de Caruaru. No palco, os integrantes contagiaram o público com um repertório repleto de baião, samba-matuto, xote, xaxado, frevo e forró, a maioria do CD ‘Tudo Isso É São João’, lançado em 1999 com músicas juninas.

Fonte: Redação com Secom/JP

JORNAL DO BRASIL

Nelson Gobbi, Terça-feira, 15 de Junho de 2010

Conhecido por temas que se tornaram parte da cultura popular, Zé do Norte (19081979) tem sua obra celebrada no álbum Lua bonita. Ao lado de convidados como Elba Ramalho, Geraldo Azevedo e Vanja Orico, a cantora Socorro Lira interpreta canções como Mulher rendeira e Sodade, meu bem, sodade.

JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO (SP)

Que mania é essa, sujeito?

Por José Neumanne Pinto, Jornal O Estado de São Paulo, 03 de julho de 2010.

Alfredo Ricardo do Nascimento, vulgo Zé do Norte, era sertanejo de Cajazeiras, no alto sertão paraibano.

Sua cidade fica perto de Orós, Ceará, terra de Raimundo Fagner, e de Brejo do Cruz, no limite da Paraíba com o Rio Grande do Norte, cidade natal de Zé Ramalho e da cantora Socorro Lira. Os xarás se conheceram e chegaram a provar uns chopes muito bem tirados, acompanhados de tremoços, num restaurante alemão simpático da Lapa carioca, o Bar Brasil. A morena Socorro, dona de uma voz melodiosa e cristalina, é de outro tempo, outra geração, outro feitio. Mas agora ela e ele estão reunidos no CD Lua Bonita, em que a cantora registrou 11 canções clássicas da Música Popular Brasileira, todas com autoria atribuída a Zé do Norte, nem todas de fato compostas por ele. Na mais famosa, Mulher rendeira, Socorro recorreu a um artifício esperto: deu a cantiga de ninar como de domínio público (DP), com adaptação de quem se dizia o autor.

De certa forma, a cantora incorporou o espírito malandro do homenageado. Este, sim, apesar de egresso das brenhas do interior nordestino, aprendeu todos os truques da malandragem carioca vivendo ao lado de Cartola, Carlos Cachaça e outros compositores de renome do morro da Mangueira, no Rio. No convívio com esses bambas da Estação Primeira, ele deve ter ouvido a sentença atribuída a Sinhô, da nata dos sambistas dos anos 30, a Época de Ouro da música brasileira: “samba é como passarinho, está no ar, é de quem pegar”. E tratou de registrar como da autoria dele canções que ouviu a mãe no sertão ou algum companheiro de caserna afinado em Fortaleza cantar ou, quem sabe, em terreiros de macumba no Rio mesmo. Mas nem depois de haver tomado todas, jamais revelou ao amigo mais fiel que músicas ele de fato compôs e de quais ele assumiu a autoria. Típico personagem de Rio, Zona Norte, clássico do Cinema Novo, de Nelson Pereira dos Santos, ele não foi nisso original. Patativa do Assaré não acusava Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, de se impor como parceiro em canções que não compusera? E o maestro Heitor Villa Lobos não adaptou temas de DP (como Ó, mana, deixa eu ir, também do folclore paraibano) nas Bachianas?

Certo é que Mulher rendeira já era cantada no sertão antes de Zé do Norte ser dado como gente na então capital federal. Há quem diga que seu autor é Virgolino Ferreira da Silva, o temido cangaceiro Lampião. Mas é mais provável que tenha sido adaptada e recebido acréscimos ao longo do tempo. E não é de todo improvável que algumas estrofes tenham sido criadas por aquele que a adotaria como obra dele.

De qualquer maneira, a cantiga foi o ponto de partida da carreira artística que catapultou Alfredo Ricardo do Nascimento para a fama como Zé do Norte. Boa praça, com muita verve, ele se tinha tornado amigo de intelectuais cariocas. Cantando uma embolada que fez imenso sucesso no espetáculo Aldeia Portuguesa, aproximou-se de Joracy Camargo, letrista musical e autor do maior êxito de bilheteria do teatro na virada dos anos 40 para os 50: Deus lhe pague, protagonizado por Procópio Ferreira.

Pelas mãos de outra escritora e jornalista renomada, a cearense Rachel de Queiroz, foi indicado para a equipe da produção cinematográfica de O cangaceiro, dirigida pelo paulista Lima Barreto, como consultor de prosódia sertaneja. Terminou sendo o “autor” da trilha sonora, interpretada por Vanja Orico, também atriz e filha de um político renomado da época, Osvaldo Orico. O sucesso da fita em Cannes e nas bilheterias e da trilha elevou Zé do Norte ao Olimpo do cancioneiro popular nacional.

Vanja, assim como Elba Ramalho, Geraldinho Azevedo, Sandra Belê e Zé Paulo Medeiros, tem participação especial no belíssimo CD de Socorro Lira. Divide a interpretação de Sodade, meu bem, sodade, uma obra-prima do lirismo musical sertanejo que, graças ao talento e à esperteza de Zé do Norte, se imortalizou. E, mercê da sensibilidade de Socorro Lira, encanta ouvintes de hoje, como antes já fizera.

Morto aos 71 anos, em 1979, Alfredo Ricardo do Nascimento levou para o túmulo o segredo do que seu heterônimo Zé do Norte realmente compôs ou do que retirou do limbo do anonimato nas brenhas para projetar na glória das execuções no rádio e na televisão pelo mundão além das porteiras do sertão. Socorro Lira, com a ajuda do pesquisador Assis Ângelo, outro paraibano, resgatou a obra e a saga de seu conterrâneo, mostrando que cada canção, por ele composta ou trazida a lume, vale esse preito à alegria, à malícia e à criatividade do sertanejo que, escolado nas manhas de sobreviver, fez-se malandro carioca de escol, chapéu de feltro e cachecol